Os três moradores
Havia uma casa no fim de uma rua que terminava nela mesma, e por isso era a rua mais chegada em ficar. Na casa moravam três.
O mais velho chamava-se Ontem. Acordava às quatro da tarde já cansado, que dormir para trás cansa mais do que andar para frente. Vestia um pijama cor de retrato e ia pela sala arrastando os chinelos como quem arrasta datas. Ontem tinha o vício de guardar. Guardava jornal velho, guardava mágoa em vidro de compota, com rótulo e tudo, escrito a lápis: dói de março, dói de quando foi embora, dói sem motivo, melhor deixar fechado. Guardava principalmente o que era pra jogar fora. Dizia que jogar fora é um desperdício de sofrimento.
Mas Ontem tinha um dom, que velho sempre tem um. Sabia de cor o mapa das cicatrizes da casa. Passava o dedo na parede rachada e falava baixinho: desta aqui nós sarou. Falava errado assim mesmo, nós sarou, e nesses momentos a casa gostava dele.
O segundo morador vivia longe demais para ser visto. Chamava-se Amanhã e era, diziam, o mais bonito dos três, mas diziam por ouvir dizer. Amanhã morava viajando. Era viajante profissional de um país ausente de todos os mapas, até dos mapas antigos, que são os que têm mais países. De lá mandava cartão-postal: cidades ainda por construir, rios que ainda estavam aprendendo a correr, um sol nascendo do lado errado só de moderno. O carimbo do correio vinha sempre sem data. Todo postal terminava igual: chego já.
Fazia cinquenta anos que chegava já.
Uma vez mandou um embrulho. A casa inteira se ajuntou pra abrir. Dentro tinha vento. Vento dobradinho, arrumado com capricho, cheirando a plano. Ontem, que entendia das coisas por já ter sido todas elas, cheirou e diagnosticou: sinto aqui é medo com roupa de domingo. E guardou num vidro de compota, por via das dúvidas.
O terceiro era o do meio. Chamava-se Hoje e era sem graça.
Hoje falava pouco e pequeno: o café está pronto. tem alguém ligando. senta aí. Frase de efeito, nunca fez.
Ora, nessa casa morava também uma pessoa. Podia ser qualquer uma, e por isso mesmo era todas. A pessoa passava a vida no corredor. De manhã ia ao quarto de um escutar pela milésima vez a história do que doeu, e a história doía de novo já que história bem contada guarda a pontaria. De tarde ia à caixa de correio esperar notícia do outro. Ficava lá, de mão no queixo, relendo postal antigo, conferindo o chego já contra o relógio. Do museu para o mapa, do mapa para o museu. E o corredor foi ficando gasto no meio, e a pessoa foi ficando gasta no meio também, até por que corredor e gente se gastam parecido.
Hoje via aquilo da cozinha. Coava o café e esperava, era a única prenda que ele tinha.
Os outros dois mentiam, cada um pro seu lado. Ontem jurava: você ainda é aquele. Amanhã jurava por escrito: você será outro. E a pessoa vivia espremida entre as duas juras, cabendo mal em ambas, vinham de tamanho errado.
Um dia a pessoa entrou na cozinha por engano. Ia pro corredor e errou a porta, benditos sejam os erros de porta. Hoje serviu o café, empurrou a cadeira com o pé e disse a única frase comprida da vida dele:
Você é este.
E doeu menos do que se temia. E era mais do que se sabia.
A pessoa sentou. O sol lambia o muro. O telefone tocou e era alguém que queria bem, desses que ligam por ligar, que motivo é coisa que o amor dispensa. A tarde preparava lá longe a ventania dela, mas ventania de tarde é assunto da tarde, e a cozinha estava de manhã.
Dizem que Ontem acabou se mudando. Levou os jornais, os vidros, os chinelos de arrastar datas. De vez em quando escreve, mas escreve curto, que saudade tratada vira só lembrança, e lembrança pesa menos que mágoa, dá até pra carregar no bolso.
Amanhã continua mandando postal. Chego já. O relógio da casa aposentou a espera.
E Hoje ficou. Ficou sendo o pão, a janela, o sol posto no muro como mesa posta. A pessoa que andava enfim havia entendido.
os outros dois eram hóspedes.
Hoje era o dono.

Adorei